Blog do Nides

Quer comentar? nides@bol.com.br



Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

Moagens de um ex-goleiro

Quem quiser me chamar de loroteiro que chame! Mas é fato que marquei 23 gols em 14 jogos no Maracanã! Sério mesmo. Mas antes que continue o seu ar de desconfiança, devo esclarecer que foram gols marcados no bairro do Maracanã e não no famoso templo do futebol mundial. Aaaah, mas conto, por que conta...Naquele ano o Rio de Janeiro estava começando a campanha para sedear os jogos pan-americanos e a turma da São Francisco Xavier jogava toda quinta-feira no Liceu Português. E para espanto dos cariocas, que zombavam do meu futebol perna-de-pauxoréu, fui um eficiente banheirista e, tal qual Romário, aproveitei os rebotes para marcar minha fama de artilheiro. A cada gol que fiz também comemorei contando... uma festança que sempre me fazia lembrar daquele que se tornou para a minha geração o maior e melhor dos templos de futebol, muito melhor do que o Maracanã, que foi o campo do Centro Juvenil de Poxoréu.
A galera da São Francisco Xavier e do famoso portão 18 do Maracanã que me desculpe, mas campo bom é aquele, viu! Puxa vida! Desde os tempos em que íamos para a Alvorada de São João soltar bombas, comer bolo e seguíamos para o campinho. Uma das fases mais alegres da meninice aguda que guardo comigo. Quando o mestre Armando retornou a Poxoréu e injetou vida nova, atividades dinâmicas e várias outras coisas em nosso cotidiano, ele praticamente nos colocou em campo, de verdade.
No centro Juvenil, fui aspirante, colonino e atleta de três edições do famoso Troféu da Juventude. A primeira no Corintinhas, do Nego Pira, a segunda no Ofertão, do Tuca e a terceira como reserva no Ferroviária, do Fulenga. Não sei se isso acontece com você. Mas, sempre que a gente vai contar um feito no terreno do futebol ou da pescaria, somos vistos com aquele olhar de quem desconfia de uma lorota.
Confesso que nunca marquei um gol no Centro Juvenil e sequer fiz qualquer jogada digna de lembrança naqueles jogos. Minto. Teve um chapeuzinho que apliquei sem querer quando jogava no corintinhas. Mas, foi tão magro, tão sem querer que nem contaria se não estivesse tentando fazer um retrospecto de minha memória futebolística em Poxoréu.
Quando goleiro, marquei época como um dos mais frangueiros da cidade. Nego Pira, Tuca e Fulenga (que apelidos!) foram meus técnicos... O Renatão era quem gostava de emendar essas memórias de pescarias e futebol com uma prosa cheia de gargalhadas. Pena, que não deu tempo de dizer a ele destas minhas aventuras de atacante pelo Maracanã - o bairro. Riríamos muito. Mas, como todo bom poxoreense deve saber, há algo muito mais do que nas palavras, que tornam os poxoreenses mais do que amigos e conterrâneos. Quem vive, compartilha e convive em Poxoréu, vive o grande prazer de enriquecer sua vivência com o encantamento das amizades. E este é o grande gol que qualquer pessoa pode marcar na vida! Oxalá soubessem nossos políticos de que mais do que a autoridade de um prefeito, precisamos da sinceridade dos bons amigos para ver evoluir nossa terrinha.
Mas, por enquanto é isso. Outro dia, teceremos mais conversas. E somente para ilustrar minha moagem, apresento um documento histórico: uma foto do glorioso Ofertão Futebol Clube, honradamente lanterninha do XV Troféu da Juventude - Poxoréu / 1985. Escalação original: Márcio, Doma, Zé Carlos, Ozéas, Nides. Agachados: Gino, Fred, Biela, Kemil, Gino e Reginaldo.

postado por: NIDES FREITAS 9:06 AM


Quarta-feira, Maio 21, 2008

Pobre riminha
Essa minha
Dita assim
Parece o fim
Mas é pior
Até meu suor
Cheira a tal
Tal qual
Malvado
Atrasado
Repasso
Meu passo
Repenso
O consenso
E distraio
Meu maio
Junho já vem
Como um trem
Cortando
Inovando
E eu de novo
Citando o povo
No peito e na raça
Fujindo de farsas

postado por: NIDES FREITAS 2:35 PM


Sexta-feira, Maio 04, 2007


Candangas letras
a poesia que ela despeja em meu domingo
vem de uma biquinha na ladeira das saudades
escorre pelos cachos de buriti e vai descendo
até pelos mandacarus que o tio plantou no feriado
mandaram derrubar as saliências da estrada
mas ainda assim grilos se empoleiram para
ver o dia virar noite na quarta-feira de cinzas
diga-se de passagem meu camarada
a poesia depois de despejada arranca
de cada vigota que sustenta a alma
uma envergadura de aço-grilo falante
que beija a amada em qualquer instante
e rodopia gritando no meio do salao dos grilados
abrindo uma clareira de alegria no baile dos tristonhos
e convidando militantos vagalumes para piscar pelos cantos
feito em las vegas...
(Brasília/2007)

postado por: NIDES FREITAS 4:19 PM


Quarta-feira, Julho 12, 2006



XADRENAGEM
O louco da praça
O Zé da quitanda
O palhaço sem graça
A mulher na varanda
O amigo de infância
O dono da bola
A moça da flor
O cheirador de cola
A loira burra
O padre tarado
O marido da surra
O corredor parado
A gorda feliz
O motorista de fuga
O homem que vende
A mulher que aluga
Gente que drena
Feito xadrez
O cinema da gente



OVELHACO
Destoei do resto
O centésimo perdido
Voz desigual
No coral do partido
Sigo outra sigla
Outro sonho qualquer
Tenho outros planos
Quero outra mulher
Descobrir um caminho
Que se encaixa no pé



DIA MANTES

Quando o dia do grande mormaço passar
Terei nas mãos um minúsculo presente
Que de segundo em segundo vira futuro
E nos olhos um brilho de diamante e faísca
Como em festa de folguedos e barulhos
Por que o dia do grande mormaço
Profetizado em todos os cabarés da vilania
É somente um dia sem sol e sem vento
Sem primavera trabalho ou cansaço
Este dia será lembrado por todos
Como o mais longo período
Em que tolos foram capazes de esperar
Por uma única fresta de sol entre as nuvens
Um dia que não estará na história
Como marco de algo importante
Não terá nada de nada neste dia distante
A não ser a falta de sol firme
E a certeza de que precederá uma noite ...

postado por: NIDES FREITAS 3:10 PM


Quarta-feira, Novembro 23, 2005


Tristeza

A tristeza
que escondo
Nesta alegria
É frieza
Disfarçada
De simpatia
O crime hediondo
Do meu pensar
É um riso
Vagamundo
De tesão
Profundo
E pouco amar
O medo
Que minha coragem
Esconde
É faceiro
Como coelho
A coragem
Que meu medo mostra
É chata como pentelho
Sou estribilho
Desafinado
Numa canção
De coral
Homem sem beira
Ou brilho
Na coluna social
Voz dissoante confesso
Esta é minha filosofia
Não quero elogio
De loucos
Dispenso de chatos
Até o bom dia

postado por: NIDES FREITAS 12:19 PM




O homem sem saudades saiu sem chapéu e cortou a rua lateral à quitanda rumo ao barbeiro. Queria se desfazer daqueles cabelos crespos que cresciam desordenadamente e daquela barba que ainda coçava no rosto. Terminado o serviço, o espelho lhe mostrou uma notável cara de menino. Ele sorriu e refez o caminho em direção à quitanda. Quando menino, gostava muito de chupar jabuticabas e algo, talvez a aparência nova, lhe trouxe novamente este apetite de menino. O homem sem saudades não achou jabuticabas na quitanda. Mas adorou conhecer o sabor de uma sirigüela chilena. O homem sem saudades gosta de jabuticaba e de todos os sabores de sua infância, mas para ele nada é melhor do que conhecer um novo sabor. Sua cara de menino estava risonha enquanto andava pelas ruas de uma cidade distante da sua.

postado por: NIDES FREITAS 12:09 PM


Sábado, Setembro 10, 2005

!
PAZ sou

Sou meio
PAZ
tel
Mas há
PAZ
em mim
PAZ
sei tempos`
PAZ
tando dogmas
Mas
PAZ
sou o tempo
e PAZ
sei
a ser
vir (a ser)
a servir
só tenho
PAZ
ciência
e PAZ
maceira
mas
PAZ
sim fico
em PAZ
serias...
Sou de PAZ

postado por: NIDES FREITAS 11:13 AM


Segunda-feira, Agosto 22, 2005


O CONTADOR DE HISTÓRIAS

No tempo em que eu era menor do que o mastro da bandeira da UNE que carregava, enchia-me um orgulho bobinho de uma vontade brotada nos garimpos de diamantes do Poxoréo ( que agora se escreve Poxoréu, tá?!). Era a coisa mais incompreensível que eu poderia fazer no conceito de muitos amigos de pensão, lá em Vitória. Era um gesto de esperança que tinha, na verdade, se instalado no tempo de UESP, os estudantes secundaristas de Poxoréu. Pois bem: Lula, na cabeça desta juventude bandalheira que pintava a cara, era uma possibilidade de ruptura com aquilo que nos fazia ir para as ruas gritar utopias. Deu vontade de voltar pra casa, quando FHC adiou aquela vontade de ver o PT no poder. E aquele desencanto foi suportado com muito cinema. Era cinema e xadrez numa vibração maior do que o mastro da bandeira da UNE. E deixei o movimento estudantil, deixei de fazer teatro, apesar de ter sido premiado no Festival de Vassouras(RJ) e Anápolis (GO), deixei as utopias de mudança e fui á luta. Absorvi saudades, ignorei distâncias, embolei lendas para seguir adiante nisto que um dia fui cair na marra de achar bom de viver, como um homem livre sem paradeiro, cheio de amores e histórias. Fundei um clube de xadrez nesta época. O Clube Metropolitano de Xadrez dos bons tempos de Centro de Vivência. Foi praticando este vício maravilhoso que analisei o diagrama geral das conseqüências e decidi empreender mais na cultura. Elaborei festivais de cinema e música (lembram do Festival Universitário Independente ¿ FUI?), fiquei materializando idéias até chegar o momento de partir para outro lugar para estudar mais. O Rio de Janeiro foi o próximo destino, depois que Austrália e Espanha também foram rotas abortadas. A mudança para o Rio coincidiu com o início do governo Lula. Aquele pelo qual eu tinha batido latas desde o tempo em que era seminarista em Campo Grande(MS). O Rio lavou minha alma. Cresci anos em meses. Principalmente ao cair na realidade de que nada seria mudado, nada seria mais necessário mudar: somos poder. Mais cinema e mais xadrez para passar pela turbulência. O posto 6 de Copacabana e o Estação Botafogo foram points desta cachaça que minha alma pede. Agora, lavado pelo desencanto, mas não desencantado, parto para a política, de fato. Deixo de esperar que façam e parto a fazer o que entendo necessário para alcançar pelo menos um pouco das muitas utopias que um dia me levaram pelo mundo. Vãs filosofias, mas pelo menos agora não carrego bandeiras de ninguém. Somente as minhas: ¿o amor é meu Deus e eu sou seu profeta¿, como diria o poeta.

postado por: NIDES FREITAS 4:18 PM


Sexta-feira, Junho 24, 2005


FALO DE FOGO

Nunca o agora ou nunca foi tão na nuca, na molera de um impulso que brota e ferve como arroz querendo fogo para espalhar e fixar tempero. De olhares temperados me faço e disfarço todo o excesso de sal com água e silêncio. Quando o fogo desata um fervor sem igual, acrescento pequi e toda iguaria que destaca a delícia de estar aqui, curtindo o mistério de um amor que não me abandona, como o sabor de um milhão ralado num panelaço de grãos coloridos e acenourados de um domingo de verão. Não de um domingo de praia, mas um dia tão quente que a roupa molhou, como se fosse chuva. Que a sereia apareceu como se fosse musa e que o corpo estalou como parreira de uva, na beira de um fogo, tão cheiroso e macio que deu saudade dos velhos invernos de versos, batatas e quentão. É somente pela incidência de fogo na alma que sou o caçula calmo de um pai valentão, filho andante deste parado chão.

postado por: NIDES FREITAS 1:54 PM



Falou, falou e não disse nada
O saco coça com a mesma intensidade com que o mundo gira em torno de possibilidades erráticas. Proteínas que giram em busca de uma faisquinha de espírito qualquer, enquanto desfrutam de um mundo escroto. O dia vai virando noite na mesma velocidade em que se faz e desfaz um arco íris e sobra na beira dos rios um sol alaranjado que parece o dia de um juízo qualquer. Não o final, por que este é o mais mentiroso, mas o dia de perder o juízo, talvez como o gesto mais sincero possível ante ao emaranhado de coisas que despontam para rápido julgamento do amalucado processo pessoal. Rápido! Tem que pensar nisso naquilo e naquiloutro, antes de tal hora assim, assim... tem que pagar isso para depois ter mais isso e aquiloutro. Por que raios Deus criou um dia com apenas 24 horas? Por que raios somos obrigados a dividir estas poucas horas com gente que acumula toda qualidade de chatice, eloqüências do ter e sofismas baratos?
Sobre a eloqüência transbordante do discurso vazio, meu pai me diria que se desarma facilmente a arapuquinha de neguinho conversador. Mas há que se reconhecer a habilidade de tecer sedas para o além-falar. É como o manequim de arame que, mesmo sendo só a fiação, confere à roupa a beleza de suas curvas, costurada para todo e qualquer corpo. É como o balão que mesmo sendo tão inflado e pomposo não passa de ar bem aprisionado em paredes flexíveis. O velho saberia destas coisas porque também este era o seu ofício. Inflar verborragias, tecer eloqüências, cobrir manequins com as mais coloridas colocações acerca do nada e de alguma possibilidade de tudo. Há quem diga que falar, falar e nada dizer é habilidade de feiticeiro, de homem da cobra. Outros preferem utilizar esta capacidade para vender terreno no céu. Mas, há sobretudo, os que aprenderam a desarmar as arapucas colocadas em nome de uma suposta argumentação. Trato de louco é loucura. Loucura, distrato e faço pouco. Não se deixar emprenhar pelos ouvidos é o que desarma o mais habilidoso sofista. É por isso que os pastores passam longe dos rebanhos que, mesmo sedentos e fétidos, tem suas orelhas em pé.

postado por: NIDES FREITAS 12:06 PM



mOLHO

Sou eu mesmo o dono desta poesia
Que despenca do meu olhar soslaiante
Sou eu mesmo o dono desta analise simplista
Que jamais permitiria ser apenas palavras
É minha também esta vontade de amar
Que escorrega no peito feito lágrima cumprida
Que passou- como colírio- tempos retida no olho
Se você encontrou por aqui
Qualquer traço de meu perdido molho
Pode fazer uso, como queira
Na poesia e no olhar, nada escolho

postado por: NIDES FREITAS 12:04 PM



A gota serena

Era um dia de calor intenso. No meio do oceano uma densa nuvem se formava. Ela pairava e se movimentava lentamente em direção à cidade. Nesta nuvem viviam bilhões de minúsculas gotículas em formação. E por um fenômeno inexplicável essas gotículas começaram a conversar entre si. E do que elas falavam? Ora, conversavam banalidades, assuntos de gotas. A mais novinha de todas aquelas que estavam se formando também era a mais medrosa. Serena era o seu nome. As outras gotas ficavam eufóricas e chamavam a nuvem de grande escola, onde elas se formavam. Mas a gota serena ouviu, certa vez, as mais velhas conversarem que estava chegando o vento sul e que logo elas seguiriam com maior velocidade em direção à cidade. Uma conversa das nuvens com o vento deixou a gota serena muito assustada. Ela ouviu o vento soprar para as nuvens que em breve todas elas cairiam no solo e seriam sugadas pela terra. Muito assustada, a gota serena quis se separar da nuvem. Não conseguiu. Tentou subir no céu, além de todas as nuvens, mas estava presa à densidade do ar. As outras gotinhas perceberam o medo e o desespero de sua irmãzinha e tentaram consolar a coitada. ¿você tem que aceitar o ciclo de nossa escola até o dia da formatura¿, uma disse. Outra chegou a explicar que a cerimônia de formatura era conhecida como chuva. Mas nada consolava a a gota serena. Ela não se conformava em ser sugada por aquela bola distante que as outras chamavam de terra. O vento soprava mais forte e dizia que estava chegando o momento de fechar o ciclo e de sair daquela vidinha de nuvem. Todas as gotículas ficaram assanhadas como crianças no pátio da escola. Era o dia da formatura. Quando o avô trovão esbravejou no céu o seu estrondo as bichinhas iam caindo, caindo, caindo. A gota serena apertou os olhinhos e se deixou levar pelo vento. No meio do caminho ela se transformou numa gota viçosa e bonitona, mas ainda assim estava triste por que tinha medo de ser sugada. Mas quis o destino que a gota serena fosse mais feliz. O irmão vento fez com que ela fosse levado para um lindo jardim. E a gota serena caiu numa bela rosa vermelha, que esperava ansiosamente pela sua chegada. Quando se viu no reflexo da água que ficou empoçada no chão, a gota serena ficou ao lado de outras gotas e foi até fotografada para este blog. E o medo tinha desaparecido. Tanto que Serena ela ficou querendo voltar para a escola nuvem de novo, para se formar e cair e voltar a cair. Acabava de compreender o seu ciclo de vida, a gota Serena.

postado por: NIDES FREITAS 11:59 AM


Terça-feira, Março 01, 2005



CULTURA É A MÃE

Fiquei todo o mês de janeiro me alimentando novamente da cultura maravilhosa de minha mãe. Foi na digestão do pequí que cheguei à reflexão de que um dos urgentes desafios para as gestões públicas, em todo o Brasil, é transformar e fortalecer a sua indústria cultural. Dito assim parece pomposo, ou chato, mas o fato é que tão rico quanto o petróleo, a soja e o aço é o patrimônio imaterial de um povo. É certo que o estudo das cadeias produtivas da cultura (o quanto gera de emprego e renda o teatro, o cinema, etc) no Brasil é muito recente, mas já é possível afirmar que a preservação dos saberes, das vivências, do imaginário e da oralidade de um povo pode empregar muita gente, gerar muito dinheiro e qualidade de vida para todos os moradores.
No Mato Grosso, cidades que já foram importantes centros de difusão cultural estão perdidas no tempo, à mercê de gestores que possam vir a compreender a necessidade de preservação e a importância das tradições para a auto-estima de sua gente. Isso acontece em cidades ribeirinhas que perderam o encanto das águas, ou cidades de garimpo que perderam o atrativo milionário de suas riquezas naturais.
Um exemplo bem claro disso acontece em Poxoréo. Durante décadas a cidade foi a terra prometida para brasileiros e estrangeiros que viram ali a possibilidade de um futuro melhor. As famílias que chegavam iam formando um raro mosaico de tradições culturais, saberes, fazeres, comeres e vivências que impressionaram e marcaram a vida de muitas gerações, conforme registrou Michael Baxter, numa tese de pós-doutorado para a Universidade de Columbia, nos EUA.
As cidades que surgiram em terras poxoreenses foram vocacionadas para o crescimento. Primavera é a filha caçula e semente de um modelo de progresso exemplar para o Brasil. Rondonópolis há décadas é de uma economia ¿animal¿. Enquanto isso, Poxoréo ainda busca formas e meios de rotacionar o seu ciclo econômico para uma fase pós-garimpo. Neste período, de indefinições no quadro político e econômico, o que se percebe naquela que foi a Capital dos Diamantes é um descaso com todo o caldeirão cultural que ali fervia, unindo indígenas, negros, nordestinos, pantaneiros e gaúchos, sem cerimônias. As danças de índio, de catira, os folguedos populares, as alvoradas, as serestas, os pratos típicos como moqueca de jaú, galinhada com pequi, os jogos, os contadores de histórias e todo um riquíssimo patrimônio, que outrora foi motivo de orgulho são tradições que correm risco de extinção. Isso poderia ser preservado numa dinâmica de turismo cultural. Sem falar dos casarões antigos, cheios de possibilidades, e diversas casinhas de uma arquitetura bela e simples, que hoje despencam seus tijolinhos sob tortas calçadas de paralelepípedos.
Compreender a cultura como o mais rico patrimônio de um povo, como a matriz de uma ¿sabença¿, não é urgente somente em Poxoréo, uma cidade que já foi lendária pela magia do diamante, pela paisagem exuberante e pela alegria de sua gente. Há muitas outras cidades que estão se povoando sem se dar conta de que a sua alegria e o seu jeito de cultivar o encantamento brotam de uma celebrização idiotizante do estrangeiro, de uma artificialidade televisiva e de uma musicalidade e oralidade que não lhes pertence e muito menos lhe confere senso de pertencimento, de identidade. Há muitas currutelas com patrimônio deteriorado, quase perdido. Há muitas pessoas que poderiam viver desta ¿muntuêra de coisaradas¿ que somente elas sabem fazer, contar e preparar para as futuras gerações.
Atrelar o fazer cultural à cidadania, de forma determinante, é uma maneira inteligente de estimular a evolução lúdica da sociedade, preparando o cidadão para uma fase mais interativa de nossa convivência. Além de fomentar outros setores importantes da economia com a chamada indústria do encantamento.
É por isso que o desafio para os gestores municipais é grandioso e necessário. Construir redes de agentes culturais, promover a inclusão digital e dar suporte para que os artistas possam ter acesso a mídia para expressar idéias e movimentos, de forma livre e lucrativa é possível. É digno.


postado por: NIDES FREITAS 1:38 AM


Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005


Quando uma criança chora por algo tão complexo como uma metamorfose interrompida, parece que o mundo está na Primavera. Cássia, na inocência de seus oito aninhos, nutria a fantasia de ver uma borboleta surgindo de um casulo. Passou horas olhando esporadicamente para o casulo na esperança de assistir ao espetáculo de estréia de uma borboleta, cheia de cores. As borboletas só vivem oito horas e nenhuma jamais entenderia a felicidade tamanha de uma menina que ficou horas e horas ' pagiando' a sua transformação. O casulo, escondido por entre as flores e plantinhas do jardim da avó Luzia era uma possibilidade de encantamento, uma luz que Cássia guardou num dia nublado. Um segredo dividido com ar de professorinha para o primo Juninho. O menino, também em sua peraltice inocente, sequer percebeu que naquele casulo estava em metamorfose todo o sorrir de sua priminha. E, mesmo que sem maldade, esmagou o casulo. Ao perceber o casulo esmagado junto com seu sonhinho, Cássia ensinou ao primo o valor de uma transformação e virou uma fera a rugir. Esbravejou que Juninho fosse o casulo para sentir a tristeza de ser esmagado. Feroz, chorou como uma oncinha e suas lágrimas viraram borboletas esvoaçando para todos os lados as fagulhas e reflexos de sua doce imaginação infantil. Aqui está tão bom que até o inverno veio passar o verão aqui na Primavera do Leste. Amanhã vou pescar em Poxoréo.

postado por: NIDES FREITAS 1:26 AM


Terça-feira, Dezembro 07, 2004


Infantilizar

Eu acredito na possibilidade de infantilizar o mundo. A tal teoria do reencantamento das cidades não é nada mais que uma forma de olhar as gentes com olhos de criança. Os saberes, comeres, viveres e as tradições populares, quando vistas a partir deste ângulo, são cantigas de roda com pé-de-moleque grudando na memória e virando coisa de meninos e meninas. Num outro olhar, tais formas podem ser vistas como aspectos culturais que traçam a diversidade de cada povo. Sinceramente: sou mais aquela cantiga que diz que vamos todos cirandar. Porque na ciranda das idéias, no rodopiar dos pensamentos, aglutinamos uma poesia tímida a cada vez que nos permitimos sentir as coisas com simplicidade de criança que pede paz. Estou pedindo paz em terra de conflitos. Estou em Vitória novamente e vejo esta cidade como cenário de uma fase de crescimento. Suas gentes e vivências também estão etiquetados no meu patrimônio imaterial, como tantas coisas das pequenas currutelas do Mato Grosso. E não gosto deste olhar temeroso aqui imposto junto com o toque de recolher. Jamais me recolho: vou à rua! Vou à luta pelo restinho de blues que ainda vejo em cada esquina e pela possibilidade de encontrar numa noite destas a mãe do meu filho, que virá um dia para me re-infantilizar. Ai de mim e de minhas saudades se não fosse a saudade do que ainda não vivi! Ai de minhas guerrilhas se não fosse este sorriso armado que trago na cara! Ai de meus medos se não fosse minha e cara e coragem, minha cara coragem! Ai de todos os outros ais se não fosse um teclado disponível para trepidar letrinhas e juntar idéias infantilóides, como num brinquedo de armar! Ainda que tente arquitetar novos planos na engenharia política do encantamento, meu negócio é armar brinquedos de amar em cinema, teatro, dança e poesia. Porque aqueles que fazem do amar um brincar não brincam com o amor. Apenas brincam e sorriem como crianças amadas que amam. Só falta isso nesse mundão de meu deus...

postado por: NIDES FREITAS 4:50 PM



arquivo